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Aonde fores, por onde fores, encontrarás palavras. Nem sempre tão belas. Mas podes torná-las melhores que
são. Um abraço! Marcio Campos

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Triângulo amoroso






Somente quando eu o conheci, “percebi o quanto estava errada”.

Naquela noite, a balada estava demais.
Logo quando cheguei à boate pude perceber que era o dia de me esbaldar.
Escolhi aquela boate, primeiro por saber que ali só gatinhos e depois por ali estar a mais fina nata da sociedade belo horizontina.
Esperara tanto tempo para estar ali, juntara cada centavo do minguado salário que tinha que dividir com a faculdade e me dispusera a sair à caça.
Era um mundo de sonhos que não penetrara ainda por não dispor de numerários.
Ali, no bar mesmo, vi dois carinhas tão lindos que nem resolvi dar continuidade a minha caça- um já era suficiente, mas dois... abandonados! Um mesmo só me bastaria.
Peguei a bebida, ajeitei o cabelo, retoquei o batom e me aproximei.  Ao me aproximar pude perceber que eu estava errada em minha avaliação anterior... Que decepção! Eram, ainda, mais lindos!
Que simpatia, aliás, simpatias, convidaram  para sentar-me e comecei a jogar meu charme de felina no cio que não sabia para que lado atirar.
Deuses gregos, longe do Olimpo, e ainda sós. A conversa fluía animada.
Altos drinques, dança e uma boa dose de sedução.
Lógico que a investida final não poderia ser ali. Teria que ser em outro momento, pois qualquer paixão daquelas me divertiria.
Passamos a noite juntos e só saímos da boate lá pelas 6 da manhã.
Trocamos os telefones e fomos para nossas casas.
Para minha surpresa, na sexta seguinte fui chamada para sair de novo por um deles.
Ao chegar à boate encontrei os dois a me esperar e tudo como antes.
De lá fomos para o sítio da família de um deles, ali nas proximidades de Santa Luzia.
Fim de semana maravilhoso! Éramos agora amigos.
A partir daí não mais nos desgrudávamos. Mas a relação não fluía nem por um lado nem por outro.
Num destes nossos finais de semana viajamos para o sítio e ao acordar à noite notei que nenhum dos dois estava em casa. Percebi que no jardim estavam a conversar e fui para lá para somar o terceiro lado do triângulo.
Quando cheguei percebi notei que em meio às flores eles não só conversavam como trocavam carícias.
Notaram que eu chegara e nem sequer mudaram de atitude. Espantada, perguntei o que faziam e se não me notavam uma vez que estivera ali o tempo todo, a esperar que pelo menos um deles me desse uma migalha de carinho, maior que o da amizade.
Entre olhares, sem terem o que dizer de imediato pela reação histérica que tivera Viny levantou-se pegou a minha mão, conduziu-me para dentro, sentou-me no sofá, trouxe-me um copo d’água e pegou um livro de William Shakespere e recitou o soneto 116 que dizia:

"Permitam me, ao casamento
 de mentes verdadeiras não admitir impedimentos
Amor não é amor se mudar quando mudanças encontrar
Ou vacila diante daqueles que querem lhe afastar

Ah não, Amor é um marco eterno
Que olha para a tormenta e nunca se abala
É a estrela de cada latido errante
Cujo valor é desconhecido, embora seja conhecida sua altura.

O amor não é um Bobo do tempo, 
Embora lábios e bochecas rosadas atraiam a bússola de sua foice flexível
O Amor não se altera com horas breves ou semanas

E aguenta firme mesmo à beira do abismo
E se a mim for provado que isso está errado
Então eu nunca recitei, nem nenhum homem jamais Amou."
 

Ao concluir, me disse – “esse soneto lhe dirá exatamente o que fazer, tem a exata medida de nosso amor de amigo por você e que a respeitam. Podemos continuar ofertando-lhe a amizade que sempre tivemos por você. Amamos-nos e amamos você, minha amiga. Queremo-la ao nosso lado sim- alegre, divertida, companheira de muitas horas. Mas quando me disse que não acreditava em amor entre homens você simplesmente externou preconceitos que não deixaram ver o nosso amor. Estivemos sempre ao seu lado e em nenhum momento demo-la esperança alguma. Ofertamo-la nosso amor de amigos e isso não pode negar. Estamos de braços abertos para que continue a fazer parte desse triângulo de amigos.”
Beijou-me ternamente e foi-se.
Dormi anestesiada, ali mesmo.
Quando acordei, rememorei nossa conversa. Vi o quão ignorante fui e o quanto me deixei levar pelo preconceito.
Pedi desculpas e percebi que somente o conhecera naquele momento - então percebi o quanto estava errada. Fui fútil, interesseira e aguardava do outro somente e que não pude ofertar.
A ele devo ter me aberto os olhos e me tirado daquela cegueira.
Somente os que amam verdadeiramente conseguem ser generosos com os ignorantes.




Edição Conto/História
Tema: Então percebi o quanto estava errada.
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3 comentários:

Paulo Francisco disse...

A imagem do triangulo com a palavra amor já é um poema. Muito bom.
Um abraço

Adriana Vargas de Aguiar disse...

Adoro escrever sobre este tema, é instigante, misterioso e causa uma evolução no texto.

Obrigada por sua visita, ficamos feliz com seu comentário!
Abraços,
Adriana
O CLUBE DOS NOVOS AUTORES

FLOR DO LÁCIO disse...

Obrigado pelo carinho, Adriana.